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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Mesa sobre a questão T* na educação

Hoje falei em uma mesa sobre a questão T* na educação, junto com Camila Godoi, Luís Saraiva, Allan Marrone Marcolino e Vera Paiva. A mesa faz parte da Semana de Psicologia e Educação.

Falei sobre a experiência transfobia institucional no IP e na USP e também sobre a transfobia no conhecimento da Psicologia. Relacionei em alguns momentos a transfobia institucional com o racismo e o machismo.

Para quem quiser ver o vídeo completo, segue o link abaixo. Vale a pena ver todas as f...alas, que tratam o tema sob diferentes aspectos. Muitas coisas interessantes.

sábado, 22 de agosto de 2015

Quem fica com a travesti?

(TW: solidão trans, novamente)


Hoje falei para uma amiga como acho interessante uma conhecida em comum.
Ela foi muito simpática e conversamos um tanto sobre.
Em algum momento, essa amiga me disse:
"O problema é que ela é super hetera"

Com isso, queria dizer que provavelmente a pessoa em questão não teria interesse por mim.
Nada mais natural. Afinal, tenho uma expressão de gênero feminina.

Mas essa "naturalidade" poderia ser igualmente inferida a partir do argumento exatamente oposto.

É igualmente natural que alguém não fique comigo porque "só fica com mulheres".

(E, ironicamente, a mesma naturalidade pode aparecer se a pessoa em questão "só fica com homens ou com mulheres").

As orientações sexuais predominantes ignoram a existência de travestis.
Ou seja, para qualquer uma dessas orientações, é natural não ficar com travestis.

As travestis, quando dignas de afeto, são sempre essencialmente amigas.
São naturalmente desprovidas de desejo, de libido, de sexualidade. É natural que não sejam desejadas, amadas.
É natural que não se queira ter relações com elas.

As justificativas são várias. E todas verdadeiras.
Considerando o estado atual de coisas, considerando a forma como as pessoas encaram suas orientações sexuais, todos têm motivos bastante fortes para não ficar com travestis.

Travestis não são homens.
Travestis não são mulheres.

Simples assim.

Condenam-se as travestis à solidão.
Mas todos têm seus gostos individuais. Que são seus. Que não se discutem.
Se ninguém deseja a travesti, o que se pode fazer, não é mesmo?

--

Sorte a minha que não aceito o estado atual de coisas.
E que me meto a aquendar, me meto a desejar - homo, hetero, bi, não me importa - e me meto a ser desejada. Sim, atrevo-me.
Importar-me com a orientações sexuais seria resignar-me e aceitar a solidão.

E sorte a minha que, mesmo que a invisibilização e a discriminação estejam bastante firmes em cada pessoa que cruza o meu caminho, tenho jogo de cintura e libido para desafirmá-las. E que me faço desejar, apesar do vazio de desejo que impõem sobre mim. E que minha vida contagia.

E que a vida, contagiando, desconstrói cada distanciamento, cada preconceito, cada naturalização que colocam em mim.

Vem ver essa vida. Se contagia também. Vamos desconstruir juntes.
Vem comigo?
^^

sábado, 9 de maio de 2015

Da solidão da travesti que gosta de meninas

(TW: solidão trans*)



Hoje acordei e não sabia bem onde estava
Vi que meu corpo estava em minha cama
        Mas eu não estava lá.
Eu então vi que eu não estava em lugar nenhum.

Sempre brinquei tanto com o desejo
O desejo me era amigo, íntimo, companheiro
E agora
        Desejo, para mim, é nada mais que uma lembrança longínqua
Me sinto assexuada em meio à multidão libidinosa

Quem é que iria me querer?
Não tenho aquele masculino que atrai as moças que gostam de meninos
Também não há em mim o feminino que desejam as que gostam de meninas

--

Cansada de ser eu...
Aliás, quem sou eu, quem poderei ser?
        Se não posso ser senão junto
        Se minha história é a história de meus amores
        Se me encontro em cada encontro em meu caminho
Quem poderei ser se sou só?
Fico vazia de mim.

Eu, que sempre esbanjei libido
Me castro diante do desejo dos outros
        Que afirmam, com razão, como sou linda
        E maravilhosa, e até sexy
Mas é um sexy que só desperta desejo nos outros
        E esses outros ainda não encontrei

        (O desejo não vem senão daqueles que aprenderam, vez ou outra na vida,
        Que só sou objeto superficial e carnal,
        Mas não digna de uma relação, de afeto, de amor)

Eu, que sempre tive relações tão próximas,
        Que sempre tive trocas profundas
        Com todes que passaram por minha vida
        Eu, que amo tanto amar profundamente,
Encontro-me de repente procurando sexo
        Só sexo, sem sentimento, sem troca, sem nada. Só para poder sentir-me um pouco desejada.

E vejo-me fechando ao mundo
Não brincando como sempre brinquei
Não amando como sempre amei
Não sou mais eu
        Perco minha libido
        Perco meus encontros
        Mais uma vez na vida, mal posso conversar sem medo

Esse medo me domina
        Fico só. Com medo. Um medo só.
        E de repente o que fica é só o medo.

--
 
        Não queria ter dormido
        Não queria ter acordado.
O medo da vida agora se mistura com quem eu sou.
Meu gênero se confunde com a solidão.

Queria ainda não saber onde estou. Mas agora vejo bem.
        Estou aqui.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Sobre quem eu sou - parte I

Já cometi diversos erros tentando mostrar quem sou nessa vida
Tentando encontrar esse lugar.
Alguns são tranquilos e fáceis de voltar atrás. Outros deixarão marcas para sempre.
Alguns são passageiros e marcam uma fase importante.
Outros ainda não cheguei a notar.

E continuarei cometendo inúmeros erros.
(E salve todos os meus amores, que me permitem ver mais sobre mim e encontrar meus erros
Que me permitem, em sua relação comigo, que eu mude cada vez mais, e que eu seja cada vez mais eu)

Já tive medo de ser mulher.
Tinha medo das ruas, medo das pessoas. Medo de mim em qualquer situação.
Mas pude sê-lo.
E sendo mulher não pude mais ser homem. Não por mim. Mas não se me permitiu.
Eu tinha que mostrar ser mulher. Tinha que me enquadrar. Tinha que me comportar.
Para ser respeitada precisava convencer que era mulher. Não podia haver em mim um homem.
E, para ter respeito, para ter reconhecimento, para ter minimamente um lugar no mundo
Em função da violência que senti do mundo
Tive que esconder meu homem.

Mas lá havia ele. Junto com ela.

Entre as pessoas que me conhecem, que já tocaram minha alma, há aquelas que veem a mulher
E aquelas que veem o homem
E há ainda aquelas que podem ver ambos, que compreendem-a-não-compreensão dessa dualidade

E não pude mais deixar de ser aquilo que sempre fui.
Tive que ser novamente isso que não se pode definir. Tive que ser esse homem-mulher mulher-homem latente

E sei que essa violência que há no mundo vai tentar me impedir
E sei que vou ter que enfrentar aquilo que não conheço, aquilo do que não sei a força
Vai ser difícil.
Mas este sou eu.
E não vou mais convencer ninguém. Porque não há o que convencer. Porque tudo o que há, tudo o que sou, é transparente e verdadeiro.
O que vou é brigar. Porque, se o que sou é transparente e verdadeiro e, ainda assim, não posso sê-lo,
Se há essa violência que me atinge todo o tempo,
Não há nada que me reste a não ser brigar.

(E, em meu canto, com meus amores, com essas pessoas que já estão em minh'alma,
Aí sim estou em meu mundo, estas sim me veem como sou, então nada posso senão amar)

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O que virá depois?

Estou enfrentando uma briga para a qual eu não estava preparadx
Escolhi entrar nela, escolhi brigar.
Mas eu não sabia qual era a força do oponente. Eu não sabia
        Eu não sabia da sua onipresença
        Do seu poder se se infiltrar, por todos os meios, no fundo de minha alma
        De entrar na minha vida, de controlar tudo

Estou enfrentando uma briga para a qual eu não estava preparadx
É como se tivesse pulado e, já no ar, percebesse que não consigo chegar do outro lado
        (Tentei voltar. Mas o ponto de partida já era inalcançável.
        Tentar voltar faz-se tão inútil como continuar avançando)
Cair é inevitável. Não há onde segurar. Só há a visão do abismo se abrindo abaixo.

E nos poucos segundos que separam o salto da queda
        Nesses poucos segundos entre se dar conta de que vai perder a luta e a derrota de fato
Pergunto se alguém, em quaisquer das margens do penhasco, vai me puxar de volta
        Espero soar o gongo. Soe, soe, por favor! Mas não ouço nada. Não há trégua para mim.

O tempo só continua passando. A derrota. A queda.
        E tudo de repente para, no que parece ser o último momento, e me pergunto: O que virá depois?

quinta-feira, 26 de março de 2015

Só mais um relato cotidiano

Já havia passado em consulta com o médico em questão.
Foi antes de assumir minha identidade feminina.

Cheguei no seu consultório, informei à primeira pessoa que me atendeu sobre meu nome social.
Gostaria de ser chamada por ele.
Fui chamada pelo meu nome de registro. Na sala de espera.
Era a secretária do médico.
Corrigi. Ela entendeu. Pediu desculpas.
Assinei o que precisava assinar. Voltei a esperar.

Fui chamada novamente.
Pelo médico.
Pelo meu nome de registro.

Nervosa! Quantas vezes teria que corrigi-los?
Corrigi novamente. Dessa vez o médico.

Ele balançou a cabeça negativamente, como se eu estivesse errada em corrigi-lo.
Oi? O que é que ele está achando ruim?
E começou a discutir comigo.
Dizia que estava certo em me chamar pelo meu nome de registro.
Justificou:
    É o nome que estava escrito aqui na ficha.
(Ora, a ficha obviamente não tem um campo de nome social)
    Da outra vez que você veio, te chamei por esse nome.
    E olha que eu tenho uma memória muito boa!

Que bom que você tem uma memória tão boa.
Pena que ela substituiu sua capacidade de respeitar. E de ouvir.

Ignorou que eu havia informado meu nome quando cheguei.
Ignorou que eu havia acabado de informar (pela terceira vez) o nome pelo qual devia me tratar.
Não, não ignorou nada na verdade.
Simplesmente não precisava me respeitar. E não queria me respeitar.
E não estava nem aí.

Quando insisti na necessidade de que ele respeitasse os direitos humanos e meu direito a uma identidade de gênero e a um nome social, a resposta dele foi dar de ombros.

E, claro, ele disse "Você pode procurar outro médico".

É, eu posso procurar outro médico. Ele não precisa de mim.
Não precisa de uma travesti como cliente.
Não precisa me respeitar.
Melhor pra ele mesmo que eu nem estivesse lá. Queria que eu saísse logo do consultório.
Queria chamar logo o próximo cliente.
Médico? Linha de produção!
E uma linha de produção que se preze não pode ter travesti. Vai afastar os clientes, né?


--

Rendeu algumas denúncias.
No CREMESP
No convênio
Na DECRADI

Vai dar em algo? Não sei. Provavelmente hoje não.
A justiça não está do nosso lado.

Mas um dia vai estar. Porque estamos na luta!
E juntas somos mais fortes.
E não vamos descansar enquanto não conquistarmos nosso respeito!

:)

quarta-feira, 5 de março de 2014

Um dia, as duas piores opressões

(texto antigo, sendo publicado agora)

Ontem foi um dia muito bom. Aprendi coisas comigo mesmo que há muito tempo precisava ter aprendido. Participei de coisas que há muito tempo queria ter participado. E me senti parte do processo.

Mas mesmo nos avanços nos deparamos com limitações
E ontem tive contato com as duas formas de opressão que mais me doeram ao longo da vida.

(Talvez se pense que sou um tanto heterodoxo.
É certo que o que vou dizer aqui não é reconhecido amplamente como opressão.
Mas é certo que é.)

--

Depois de danças, olhares e diferentes formas de aproximação
Ela se fez entender.
Me queria e sentia, por certo, algum tesão por mim.
Se aproximou alegre e se afastou receosa
Por uma, duas, três vezes.
Me prendeu entre as pernas e me beijou. E negou. E beijou.
E continuou a negar.
Não entendi a princípio. Perguntei.
O que estaria acontecendo? Qual a dúvida? Qual a contradição?
Qual o medo?
Ela não conseguiu dizer.
Mas eu sempre soube. Por um momento, achei que podia não ser,
Achei que o motivo seria outro.
Mas não.

(Antes de tudo isso, um menino bastante desorientado, com a melhor das intenções, disse que ser assim como sou traria muito sofrimento)

E era isso.
Ela queria.
Tinha tesão.
Mostrava, expressava, beijava
E tudo mais.
Mas o problema era esse:
Ficar com alguém assim como eu sou.
Ora, como? Como pode uma menina tão feminina
estar com alguém assim como eu sou?

Eu, só por ser assim como sou, ameacei sua feminilidade
Ela queria.
Mas tinha medo.
Eu, assim, sou ameaçador.
E ela exibia, tanto quanto o tesão,
Toda a aflição
Que sentia.

Mas, apesar de eu sofrer dessa opressão
Do não-se-poder-ficar-com-quem-se-quer,
Compreendo de onde vem essa aflição.
Já senti algo assim.
Era preconceito, eu sei, e medo, medo da vida,
Aquele medo que o tempo todo tenta se sobrepor à vontade e que traz essa aflição.
Aquele medo que vem de um sentimento moral.
Já senti.
E sei como é.
E espero que quem sente,
Que quem deixa de fazer - ou ficar - por esse medo,
Espero que aprenda,
Que relaxe
E que possa fazer sua vontade. Livre. Sem aflição.

Eu nunca perdoarei essa moral
Que aflige as pessoas que ficam com quem querem
Que aflige quem mostra carinho por outrem
Só pelo outro ser como é.

--

Ora, mas ainda mais uma situação opressora presenciei esse dia. Não foi comigo diretamente, mas inevitavelmente me solidarizei.

E ela, depois de tudo o que já contei,
Sentiu algo que é muito comum
Mas que todos se conformam em sentir
E ninguém vê como opressão.
Ela sentiu o que é ser propriedade, se assujeitar à vontade de outrem,
Sentiu o que é não ter seus critérios sobre si própria respeitados
Sentiu como é sua opinião não valer se não contempla a opinião do outro.
Sentiu como é sua decisão não valer se não coincide com a decisão do outro.
Sentiu o que - na sociedade em que vivemos - significa ser filho.
(Ou ainda mais: filha)

Não pôde decidir onde dormiria,
Não pôde avaliar onde estaria segura.
Depois de uma conversa com a mãe.

A mim não existem dúvidas
De que eu ficaria a seu lado nessa situação.
Ainda que tivesse me feito sentir mal em ser aquilo que sou,
Não poderia eu simplesmente me ausentar frente a uma opressão que ela sentia

E tentei, com o toque, com a liberdade, com a relação corporal que não se pode dar outro nome que não vida,
Mostrar que, mesmo assujeitada, era sujeito;
Que, mesmo feita objeto, era pessoa.

--

(Se parece grandiosa ou exagerada a forma com que trato coisas que parecem tão cotidianas e banais, isso é mais um sinal de como se internaliza e se acostuma com a opressão. Qualquer que seja, a opressão é sempre terrível, e a tratarei com a ênfase correta: como algo grande, forte, pesado. Apesar de não culpar o autor direto de um episódio opressivo, nunca deixarei com que se torne um fato normal e ameno)

--

Tive contato, e senti intensamente, duas formas de opressão em um só dia.
As duas piores formas de opressão que já vivi na vida.
E cada dia desses me faz ter mais certeza de minha luta pela liberdade.
E cada dia desses me faz ter mais clareza e maturidade para conquistá-la.