terça-feira, 7 de maio de 2013

Para não lembrar

Tudo o que me remete à paixão me lembra você.
Tudo aquilo o que é triste, distante, dolorido.

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Difícil amar quem, sem se dar, alienou meu amor numa paixão e me roubou de mim.

O momento em que se pode expressar II - do outro lado

Tem coisas que não estão no âmbito do cognitivo, ele ensinava.
São entranhadas na gente
São corporais

E o corpo dele era uma pedra
Endurecia sob um abraço, era tenso, receoso
E assumia sua dureza, apesar de compreender que não tinha sentido.

Mas não estava no âmbito cognitivo, era corporal. Era uma restrição imposta a si mesmo corporalmente.

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Agora eu ensino
Que tem coisas que não estão no âmbito do cognitivo
São entranhadas na gente
São corporais

E a mudança, sem que se perceba, acontece pelo corpo
E, sem perceber, ele tocou em mim, e me abraçou
Daquela forma, mesmo, com que fazíamos com ele para caçoar de sua tensão.
Me abraçou e ficou
Lá, pendurado em mim, sem perceber. Sem tensão.

Que te mudou assim o corpo?
Que te tirou a tensão?

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O momento em que se pode expressar

Você está lá, nos meus braços, aconchegada sob a penumbra e o cansaço. O cansaço é muito, mas ainda assim você exagera, talvez querendo esconder algo. Seu corpo macio se conforta em mim. E a menção de um sorriso já quase inconsciente me traz um momento mais de alegria. No momento seguinte seu pensamento se deixa ir e seu relaxamento pressiona meu corpo.

Mas sua respiração feliz e suave dá lugar a um ofegar quase bufante, transmitindo a tensão pelo ar. Seus dentes estalam. E estalam novamente.

Os espasmos espalham por seu corpo, tão intensos que parece lutar. Só se limita na maciez da fronteira de nossos corpos, que tenta sobreviver. Você não mais me responde.

Dorme.

Dorme em aparência de agonia. Mas quão gostoso deve ser esse sono, que libera tudo isso que estava preso nesse corpo tão doce. Como parece necessário dissipar toda essa tensão que escondia em você.

E que escondia você.

Minha querida, o que há aí dentro que te faz tão mal? O que você usa tanta força para esconder, que só no sono pode se expressar?

O que está em você, e o que te faz feliz?

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Amores serão sempre amáveis

Não acredito mais no amor.
O amor, no mundo que existe hoje, é uma impossibilidade lógica. O amor só pode existir e se sustentar se existir liberdade para acontecer e se expressar. Ora, é impossível falar de amor de forma verdadeira quando existe uma forma dada e fixa para se comportar e para sentir. O amor só é amor quando é espontâneo, e um comportamento só pode ser subsequente ao amor quando não é estereotipado ou programado por algum tipo de imposição ou restrição moral.
Mas hoje o amor é uma fonte necessária de falta de liberdade. Hoje, a partir do amor - ainda que seja real e espontâneo - , se criam necessidades de estereotipia nos comportamentos, e de restrição dos sentimentos. Em outras palavras, dialeticamente, a própria existência do amor nega sua possibilidade. O capital faz com que a restrição nasça até daquilo que é necessariamente livre.

E não existe quem, individualmente, fuja disso. Por mais que alguém se coloque contra determinados moralismos e se liberte de muitas restrições colocadas por nossa sociedade, ainda somos pessoas do capital, e vivemos em uma sociedade do capital.

(Não é uma saída juntar os amigos e montar um Kibutz de amor-livre. Isso é tão individualista que por si só já mostra como não se libertou da moral do capital. Mas isso merece um texto à parte).

E ainda que alguém individualmente se coloque fora da moral em muitos aspectos (afinal, não vejo como uma possibilidade real sair dela completamente), esse alguém ainda convive com e depende de uma sociedade que cultua essa moral. Por mais que consiga se libertar e expressar um amor honesto, esse amor vai ser combatido pelas próprias circunstâncias de sua expressão.

Os amores que amo, deixo-os para o futuro. Aprendi a amar com restrições. Aprendi a não acreditar no amor. Mas aprendi também a beleza da dialética. E o não acreditar no amor me faz ver como minha luta pelo amor real é factível.
Os amores que hoje existem, estereotipados, contraditórios, restritos, até reprimidos.. esses amores serão vividos fragmentários, e trarão tanta felicidade quanto as contradições permitirem. Mas as contradições mostram as falhas, e as infelicidades estruturais do amor atual podem ser vistas, sentidas, e dão sentido, então, para a luta.
E meus amores de hoje.. muitos deles deixo passar. Dói-me deixá-los, mas é uma dor que me motiva. Sou obrigado à restrição, à estereotipia. E as pratico, como todos. Mas para mim só há sentido nessa dor porque ela me motiva a lutar. E, de minha luta, sei que construirei um amor mais livre, mais solidário. Sei que a luta, não só minha mas de muitos, vai possibilitar o amor real, e criar condições para que a moral não faça do amor uma impossibilidade lógica. E da dor que sinto ao expressar menos o amor hoje nasce a satisfação de que esse amor ainda será amado. Talvez não por mim, mas ainda por mim: será amado.

Todo sentimento que hoje se esconde, se desvia, se reprime, se fragmenta.. todo ele será expresso plenamente. E, cada vez que preciso respirar mais fundo e não me deixar entregar, tenho certeza que os futuros amantes se amarão livremente (e sem saber) todo esse amor que um dia deixei.

Algumas coisas... só aprendemos após a derrota


A Mari foi uma das primeiras pessoas pelas quais me apaixonei. Foi forte. Tão forte que, muito tempo depois que não nos víamos, quando lembrava dela sentia ainda aquelas coisas de quem está apaixonado. Mas eu era extremamente inseguro. Não ligava pra ela. Quando ligava, não sabia o que falar. Ao propor para nos vermos, eu o fazia quase me desculpando. Não sabia o que ela pensava sobre nós, não sabia o que ela sentia por mim, e então o que eu sentia se anulava. Se retraía, com medo não-se-sabe-de-quê. Passava às vezes na A1, casa dela. Mas cada vez menos. E ligava cada vez menos. Era tão, tão importante. E eu não dizia nada, não fazia nada, não me colocava, não ia atrás do que queria.

Até que não existia mais nada.

Como eu fui idiota! Consegui acabar com qualquer possibilidade de uma paixão, só por ter medo dela.

Mas quando percebi que não havia nada, e que, tendo medo de sentir o que sentia, deixei com que tudo se esvaísse, aprendi.
Aprendi que não era problema ir atrás do que eu queria. Percebi que não era vergonha querer. Aprendi que não tinha sentido amar e, por medo de não ter o amor, não o assumir.

Já há muito tempo eu repetia que "se você vai atrás de algo, pode ser que consiga ou não, mas se não vai com certeza não conseguirá". Mas, como quase todo aprendizado, mesmo sabendo dessa conclusão óbvia, não pude agir dessa forma. Pelo contrário, tive a dura aprendizagem pela experiência objetiva. Só compreendi, senti e incorporei o que significava isso quando tive o choque de perceber que eu tinha aceitado que as coisas passassem, da forma mais passiva possível.

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Muito tempo depois a encontrei. Sem querer, sentei para estudar na mesma mesa em que ela lia. Havia tirado os dreads, quase não a reconheci. Dissemos oi, conversamos um pouco sobre a vida. Ela me olhava como quem tinha uma lembrança - longínqua, mas ainda uma lembrança - do que acontecera entre a gente. Nas falas, um ligeiro constrangimento daqueles que aparecem quando encontramos depois de muito tempo alguém que foi tão próximo. Em minha cabeça, inevitavelmente, pensava em como poderia ter sido. Será que ainda seria possível, depois de tanto tempo, e com tantas experiências nos separando, reviver algo? Vamos trocar telefones, ver se nos encontramos um dia qualquer? Conversamos por bem pouco tempo, só uma troca de palavras. Me levantei, minha companheira me esperava lá perto.

Nunca mais a vi.

domingo, 25 de novembro de 2012

Para além de mudar as coisas

Ela: Por que você luta?

Ele: Para suprimir dos dicionários a palavra "solidariedade".

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Lembrando do poema de Thiago de Mello

"
     Artigo Final. 

     Fica proibido o uso da palavra liberdade,    
     a qual será suprimida dos dicionários    
     e do pântano enganoso das bocas.    
     A partir deste instante    
     a liberdade será algo vivo e transparente    
     como um fogo ou um rio,    
     e a sua morada será sempre    
     o coração do homem.

"
(Estatutos do Homem, 1964)

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Que a solidariedade se torne algo tão comum e naturalizado que não se faça mais sentido falar nela.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Postagem ao seu estilo

Me manda um texto sobre política e sobre loucura. Bom o texto.
Tenho saudade do seu blog, e leio.

(Escrevi sobre vc em meu blog. Aliás, blog me lembra você. Escrever me lembra você, escrever essas coisas legais, da vida, da gente. Escrever do fundo do coração me lembra você.
E hoje fiquei com ciúmes. Não que vc deva se preocupar com isso, fico sempre com ciúmes. Fiquei já de mim mesmo, lembra? he.
Não que deva se preocupar com isso, mas queria falar. Queria falar como às vezes quero falar, porque assim me sinto mais próximo. Imagino que não vá mudar nada, mas mesmo assim me sinto mais próximo, nessa relação que não consigo compreender. Escrevo pra driblar um pouco a distância, e até a grosseria com que vc às vezes me trata. Às vezes penso se vc não é assim mesmo, e às vezes lembro que não.
Enfim, fiquei com ciúmes. Não sei mais se escreve pensando em mim. Mas quando li, me vi em suas palavras, vi muito daquilo que já me escreveu (e que então eu sabia que aquele era eu). Diz que não vai se jogar novamente, pois sabe do tombo. Penso se seria para mim. Não fico triste se não for. Mas se sim me alegro. (Apesar de muita coisa, escreve de mim com carinho?)
Mas depois penso se era mesmo de mim aquela lembrança que, apesar de longínqua, de alguma forma conforta. Seria já muito distante e louca essa idéia. Provavelmente não. Às vezes uma loucura me dá de estar mais próximo, e não compreendo. E por não compreender concluo que é apenas loucura. Vejo que eu era "o homem que amei".
O meu ciúmes, você sabe, não quer censurar você nuca, e nem te constranger de forma alguma. Mas pelo contrário. Fico feliz de ver você com suas coisas, com suas novas paixões e sua vida. Ainda me dói muito - e só isso - não saber mais se faço parte dela.
Blog me lembra você. E o seu é o único que leio.
Como já disse em outros posts, estou por lá.
E hoje me lembro de ficar horas escrevendo.)

- Bom o texto.
;)
Preciso ir, reunião pra fechar a chapa do CA

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Sobre meu filho

Estava pensando hoje..

Daqui a um tempo, meu filho, ainda novinho mas muito esperto, volta da escola. Ele não entende quando o colega diz que vai pedir autorização para a mãe para ir lá para casa.

Orgulho do meu pretinho!
:D

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E quantos libertários ainda acham natural que os pais mandem nos filhos!

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Por um novo modo de vida!

Um mundo em que esse amor não é possível
É um mundo que não é possível

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E como eu queria não dizer mais isso!

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Bem vindos ao "Modo contra o medo"!
Fiquem à vontade! Leiam, comentem!

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Ofuscação

Surgiu então essa pessoa na minha vida
Tão brilhante
Ofuscou a vida
E ficou só ela

Sobre o respeito consigo mesm@

Quando eu era criança, era muito comum ouvir mães de meus colegas e amigos dizerem a seus respectivos filhos
"Você não tem querer"

E cresceram sem querer
Tod@s nós crescemos sem querer

E vamos crescendo, e aprendendo então o que podemos querer.
E querem então formar família, cada qual a seu modo. Querem um futuro seguro, querem sobriedade.

Mas o capital não tira completamente seus quereres mais intensos, que fogem à sobriedade. Não tira completamente aqueles quereres pelos quais esperneavam quando crianças e contra os quais suas mães falavam a frase que me recuso a repetir novamente.
O capital não pode suprimir esses quereres. Não porque sejam naturais e insuprimíveis, mas porque perversamente o próprio capital os impõe enquanto proíbe.

Nos filmes há paixões de intensidade infinita, nas novelas há famílias felizes que gozam lindamente do companheirismo que têm seus membros um pelo outro. Nas músicas busca-se um lindo amor. Até os lamentos de solidão, as intrigas e brigas, as separações e o ódio - até os elementos negativos somente ajudam a sustentar (pela aversão) um modelo dos quereres que se impõem. Mas igualmente são impostos e inalcançáveis.

E quando se impõe a paixão arrebatadora sobre a menina, e ela quer se entregar de corpo e alma, estranhamente o "não pode" surge e a impede. Mais estranhamente, a proibição tem a própria voz da dona desse coração em fúria.

E quando se impõe a paixão arrebatadora sobre o menino, e ele quer se entregar de corpo e alma, estranhamente o "não pode" surge e o impede. Mais estranhamente, a proibição tem a própria voz do dono desse coração em fúria.

Mas nem a paixão - que é a única forma possível de expressar uma vontade que é tão reprimida - nem a paixão resiste a tanta repressão ao longo da vida. Quando se reprime a si mesmo se machuca. (E a repressão não é nunca questionada, afinal, o que mais normal que ela?). E conclui-se que a paixão, e junto com ela todo o querer, é mau. São portanto gradativamente suprimidos completamente.

O querer se torna então apenas mesmo a segurança, a sobriedade. O máximo da felicidade se torna não estar triste.
E o querer e a indiferença se tornam a mesma coisa, se confundem e intercambiam. Não se sabe mais o que quer, e não há força ou ânimo para alcançar o que se quer.

Porque, afinal, eu quero, mas tanto faz.

E então nem sequer se sabe o que se quer.

Vou brigar até o fim dos meus dias contra essa falta de consideração para consigo mesm@. E falo mesmo de forma genérica, pois não é uma questão individual. É a contradição e a perversidade do capital se entranhando em nossas vidas cotidianas, em nossos relacionamentos e em nossa forma de amar.

E vou brigar pela intensidade, pela expressão e organização comunal dos quereres individuais, e contra as imposições do capital! Pela possibilidade de expressão de toda paixão, e pela permissão social para amar!

A repressão do capital não é nossa, e nem seus quereres!