sexta-feira, 3 de abril de 2015

Sobre quem eu sou - parte I

Já cometi diversos erros tentando mostrar quem sou nessa vida
Tentando encontrar esse lugar.
Alguns são tranquilos e fáceis de voltar atrás. Outros deixarão marcas para sempre.
Alguns são passageiros e marcam uma fase importante.
Outros ainda não cheguei a notar.

E continuarei cometendo inúmeros erros.
(E salve todos os meus amores, que me permitem ver mais sobre mim e encontrar meus erros
Que me permitem, em sua relação comigo, que eu mude cada vez mais, e que eu seja cada vez mais eu)

Já tive medo de ser mulher.
Tinha medo das ruas, medo das pessoas. Medo de mim em qualquer situação.
Mas pude sê-lo.
E sendo mulher não pude mais ser homem. Não por mim. Mas não se me permitiu.
Eu tinha que mostrar ser mulher. Tinha que me enquadrar. Tinha que me comportar.
Para ser respeitada precisava convencer que era mulher. Não podia haver em mim um homem.
E, para ter respeito, para ter reconhecimento, para ter minimamente um lugar no mundo
Em função da violência que senti do mundo
Tive que esconder meu homem.

Mas lá havia ele. Junto com ela.

Entre as pessoas que me conhecem, que já tocaram minha alma, há aquelas que veem a mulher
E aquelas que veem o homem
E há ainda aquelas que podem ver ambos, que compreendem-a-não-compreensão dessa dualidade

E não pude mais deixar de ser aquilo que sempre fui.
Tive que ser novamente isso que não se pode definir. Tive que ser esse homem-mulher mulher-homem latente

E sei que essa violência que há no mundo vai tentar me impedir
E sei que vou ter que enfrentar aquilo que não conheço, aquilo do que não sei a força
Vai ser difícil.
Mas este sou eu.
E não vou mais convencer ninguém. Porque não há o que convencer. Porque tudo o que há, tudo o que sou, é transparente e verdadeiro.
O que vou é brigar. Porque, se o que sou é transparente e verdadeiro e, ainda assim, não posso sê-lo,
Se há essa violência que me atinge todo o tempo,
Não há nada que me reste a não ser brigar.

(E, em meu canto, com meus amores, com essas pessoas que já estão em minh'alma,
Aí sim estou em meu mundo, estas sim me veem como sou, então nada posso senão amar)

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O que virá depois?

Estou enfrentando uma briga para a qual eu não estava preparadx
Escolhi entrar nela, escolhi brigar.
Mas eu não sabia qual era a força do oponente. Eu não sabia
        Eu não sabia da sua onipresença
        Do seu poder se se infiltrar, por todos os meios, no fundo de minha alma
        De entrar na minha vida, de controlar tudo

Estou enfrentando uma briga para a qual eu não estava preparadx
É como se tivesse pulado e, já no ar, percebesse que não consigo chegar do outro lado
        (Tentei voltar. Mas o ponto de partida já era inalcançável.
        Tentar voltar faz-se tão inútil como continuar avançando)
Cair é inevitável. Não há onde segurar. Só há a visão do abismo se abrindo abaixo.

E nos poucos segundos que separam o salto da queda
        Nesses poucos segundos entre se dar conta de que vai perder a luta e a derrota de fato
Pergunto se alguém, em quaisquer das margens do penhasco, vai me puxar de volta
        Espero soar o gongo. Soe, soe, por favor! Mas não ouço nada. Não há trégua para mim.

O tempo só continua passando. A derrota. A queda.
        E tudo de repente para, no que parece ser o último momento, e me pergunto: O que virá depois?

segunda-feira, 30 de março de 2015

Não existe amor à primeira vista

Não existe amor à primeira vista
É nada mais que projeção
        Fetichização
        Irresponsável

Não te amei à primeira vista
Mas nesse curto tempo
Falhei
        - e olha que procurei -
Em encontrar porquê não gostar de você

Paixão e Amor

Apareceu então essa pessoa na minha vida
Tão brilhante
Ofuscou a vida
E ficou só ela

--

Mas veio então
Outro alguém
Tão mais brilhante
Que iluminou tudo à volta
E, como eu já nem lembrava,
Trouxe de volta a vida

domingo, 29 de março de 2015

Bendita seja

Bendita seja essa vida
Em que a solução
        O gozo, o tesão
É sempre
Buscar a próxima contradição

quinta-feira, 26 de março de 2015

Só mais um relato cotidiano

Já havia passado em consulta com o médico em questão.
Foi antes de assumir minha identidade feminina.

Cheguei no seu consultório, informei à primeira pessoa que me atendeu sobre meu nome social.
Gostaria de ser chamada por ele.
Fui chamada pelo meu nome de registro. Na sala de espera.
Era a secretária do médico.
Corrigi. Ela entendeu. Pediu desculpas.
Assinei o que precisava assinar. Voltei a esperar.

Fui chamada novamente.
Pelo médico.
Pelo meu nome de registro.

Nervosa! Quantas vezes teria que corrigi-los?
Corrigi novamente. Dessa vez o médico.

Ele balançou a cabeça negativamente, como se eu estivesse errada em corrigi-lo.
Oi? O que é que ele está achando ruim?
E começou a discutir comigo.
Dizia que estava certo em me chamar pelo meu nome de registro.
Justificou:
    É o nome que estava escrito aqui na ficha.
(Ora, a ficha obviamente não tem um campo de nome social)
    Da outra vez que você veio, te chamei por esse nome.
    E olha que eu tenho uma memória muito boa!

Que bom que você tem uma memória tão boa.
Pena que ela substituiu sua capacidade de respeitar. E de ouvir.

Ignorou que eu havia informado meu nome quando cheguei.
Ignorou que eu havia acabado de informar (pela terceira vez) o nome pelo qual devia me tratar.
Não, não ignorou nada na verdade.
Simplesmente não precisava me respeitar. E não queria me respeitar.
E não estava nem aí.

Quando insisti na necessidade de que ele respeitasse os direitos humanos e meu direito a uma identidade de gênero e a um nome social, a resposta dele foi dar de ombros.

E, claro, ele disse "Você pode procurar outro médico".

É, eu posso procurar outro médico. Ele não precisa de mim.
Não precisa de uma travesti como cliente.
Não precisa me respeitar.
Melhor pra ele mesmo que eu nem estivesse lá. Queria que eu saísse logo do consultório.
Queria chamar logo o próximo cliente.
Médico? Linha de produção!
E uma linha de produção que se preze não pode ter travesti. Vai afastar os clientes, né?


--

Rendeu algumas denúncias.
No CREMESP
No convênio
Na DECRADI

Vai dar em algo? Não sei. Provavelmente hoje não.
A justiça não está do nosso lado.

Mas um dia vai estar. Porque estamos na luta!
E juntas somos mais fortes.
E não vamos descansar enquanto não conquistarmos nosso respeito!

:)

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Já que não queres amar comigo




Já que não queres amar comigo
Então vou amar sozinha
Vou rever fotos
Reviver alegrias

Vou reensinar a mim mesma
Tudo que aprendi contigo
Vou dançar sozinha
Todas as nossas canções
Ler teus poemas bem alto
Ter teu colo que não está
Rir novamente de tuas piadas
E aquele cravo replantar

Já que não queres amar comigo
Então eu vou amar sozinha
Sem te dizer uma linha
De como é bom estar contigo

*

Já que não queres amar comigo
Então eu vou amar sozinha
Tapeando uma saudade
E transformando em companhia

Mas se um dia te faltares
Algo que te lembre a mim
E bater, assim, distante,
Aquela saudadezinha
Vem correndo que, quem sabe,
Ainda pode haver tempo
De desfazer o desencontro
E eu não mais amar sozinha

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

A Gisele, onde ela estiver



(Gisele não é o nome real dela. Não me lembro o nome real dela. Mas vez ou outra ele me vem à cabeça. E tenho certeza que se o ouvisse hoje seria um nome que me soaria estranho, quase jocoso, como me soava na época)

Devia ser por volta da primeira ou segunda série. Eu ainda morava em Marília. Há vinte anos!
Eu não sabia muito sobre a vida, sobre os sentimentos. Não sabia ainda como era essa coisa de me colocar no lugar dos outros.

Gisele era uma colega da escola. Não lembro dela como sendo muito próxima no dia a dia. Talvez fosse porque os grupos de meninos e de meninas eram separados. Talvez somente não fôssemos próximos. Talvez seja uma lembrança falsa, uma invenção desses anos todos que se passaram.

Gisele gostava de mim. E dizia que gostava. Algumas vezes pediu para namorar comigo. 

Lembro de sua voz. Lembro de sua voz dizendo “Quer namorar comigo?”. Lembro nitidamente de sua voz, mais nitidamente que boa parte das minhas lembranças. Fazem vinte anos..

Eu nunca respondi. Nunca dei alguma satisfação. Não sabia o que fazer. Simplesmente não sabia! Não podia dizer não, mas não queria dizer sim. Fugia. Tentava desconversar. Ficava indiferente. 
Vejam só! Ela gostava de mim! E eu ficava indiferente! Nem sequer respondia! Como pude?

Eu só não sabia. Não sabia o que ela sentia. Não sabia por que gostava de mim. Não sabia o que fazer.

A achava estranha. Não tinha tanta proximidade com ela (eu acho). Não queria namorar com ela. Mas não podia tê-la tratado com tal indiferença.

Uma vez fiz uma festinha de aniversário, daquelas que chamamos todos os coleguinhas da escola. E aconteceu algo que deve ser comum: outro colega fez o aniversário no mesmo dia. Na minha festa foram os dois ou três amigos mais próximos... e ela! Gisele escolheu ir na minha festa, uma festa em que não estavam as amigas dela... porque era a minha festa!



E eu a deixava sem resposta. Esticava cada vez mais essa situação toda. Gisele, que gostava de mim. E eu indiferente.


Não posso acreditar que já fiz isso.

Gostaria de me desculpar com Gisele. Por tudo, por tudo. Por toda a indiferença, pelas perguntas sem resposta, pela espera que a impus em minha imaturidade de não saber me colocar, por minha insensibilidade em nem ao menos poder compreender o que ela sentia e por não ser capaz de acolher um sentimento tão bonito que ela tinha por mim.

Sei que as desculpas não adiantam. E sei também que Gisele nunca as ouvirá. Onde estará ela hoje? Talvez não tenha mais nenhuma lembrança de nada disso. Talvez ainda carregue com certa nitidez uma cena ou outra.

Não podendo acreditar que fiz isso, não podendo acreditar que a indiferença pode ser em alguma situação resposta para o amor, não podendo até hoje aceitar essa lógica e, ainda assim, vez ou outra reproduzindo-a ou sendo sua vítima – ainda assim me sinto mais viva com a lembrança. Ela me faz sentir com força o que está errado e o que tem que mudar.

Provoca um maremoto em minha alma.

E, depois de semanas tão difíceis, finalmente pude chorar.

sábado, 14 de junho de 2014

Relação aberta - Contradições (Parte 1)

Você diz que minha relação não é séria
Diz que é doente
Que não é normal
Diz que até é legal, mas não suportaria

--

O rapaz namora com a moça, namora pra casar
E ela sabe que ele sempre estará ali para ela

Ele quer sem camisinha
- Qual o problema?
Ela aceita, por que não? Se ele diz...

Ela engravida.
Não estava nos planos dele. Ele precisa ganhar a vida antes de ser pai, certo?
- Acho que você ficaria melhor sem mim...

Não assume. Vai embora
E essa é uma relação séria pra você.

--

- Moleque, para de encher o saco!
- Se chorar vai apanhar!

Ela tinha que controlar o menino. (não sabia por quê).
Mas tinha que fazer ele ficar quieto.
Afinal, o filho é meu, tem que me obedecer.

A criança só queria vestir outra roupa. Não pode.
Porque o filho é meu, tem que me obedecer.
Queria brincar com os amigos mais um pouquinho só. Não pode.
Estamos atrasados?
Não. Mas o filho é meu, tem que me obedecer.

- Obedece sua mãe!
Dizia o outro
- E se chorar vai apanhar!

Essa é a relação saudável para você.

--

- Só faz merda mesmo!
Ele diz pra ela.

Ela se arrumou para ele
(depois de ter arrumado as coisas dele, arrumado a casa para ele, feito a comida para ele)
E combinou com os amigos de saírem

- Tenho uma reunião do trabalho, não posso ir.
Vai para a casa da outra. Ela sabia.
Mas quando ele estiver na casa da outra
Ela vai estar se arrumando para ele
E arruando as coisas dele, e arrumando a casa pra ele, e fazendo a comida dele

E essa é a relação normal pra você.

--

Ama seu namorado.
Ama muito, e não o deixaria por nada.
A história deles é a mais bonita. E será eterna.

Mas apareceu esse menino.
Sorriu, para ela, a tratou tão bem.
E falou coisas impressionantes, admiráveis...
Apaixonantes!

Ela queria um pouco. Mas não faria.
Não valia a pena essa aventura.
Ela tinha seu namorado. E o amava muito.

Ela queria um pouco, mas o namorado era suficiente.
Com ele ela não podia conversar sobre aquelas coisas tão interessantes.
Mas era suficiente.

Não era tão pouco assim que ela queria o outro.
Queria de verdade. Mas ainda podia se conter.
Afinal, pra que fazer algo contra
Essa relação tão grande e forte?

O namorado a supria, mas não.
Precisava do outro. Mas não pode abrir mão de seu amor.

Não suporta mais ficar com o namorado
A vontade do outro toma conta.
Mas ainda o ama. Precisa se conter. Precisa se segurar. Não vale a pena abrir mão desse amor.

A vontade é cada vez maior.
Não há mais prazer na presença do namorado.
Não há mais prazer na presença do outro.
A vida tornou-se lutar contra si mesma.

E essa é a relação que para você é suportável.

--

(Em caráter de P.S.
se para você só falei aqui sobre exceções,
sugiro desligar a TV,
e não acreditar tanto nas vidas que as pessoas inventam sobre si mesmas)

domingo, 1 de junho de 2014

Greve!

Eles querem aprender a biologia e as doenças
Para oferecerem seus serviços de saúde em suas clínicas

Nós queremos que o estudo das doenças seja para todos,
E que não haja patentes
E nem enviesamento das pesquisas por investimentos privados

--

Eles querem se formar bons profissionais
Para ajudar essa sociedade

Nós queremos nos formar profissionais humanos
Para mudar a sociedade

--

Eles querem decidir por si mesmos
Dar o melhor de si
E crescer profissionalmente

Nós queremos decidir de forma coletiva
Complementando-nos uns aos outros
E fazer todo o mundo crescer junto

--

Eles querem ouvir e transmitir todo aquele conhecimento
Que está registrado nos livros

Nós queremos ouvir, debater e superar
Criar novos conhecimentos
Novas questões
Novas respostas

--

Eles querem fazer bem seu trabalho
E serem reconhecidos por seus superiores
Por sua produtividade

Nós queremos que não haja superiores
E que sobre nossos trabalhos
Decidamos todos juntos
Porque só nós todos juntos
Podemos saber o que é ou não produtivo para nós


--

Eles querem ter aula

Nós queremos aprender

Uma abstração sobre o amor

--
Me apaixonei por alguém
Mas ainda estou apaixonada pelo meu namorado

--
Normal. Sempre acontece

--
Mas o que eu faço?

--
Ora, converse com seu namorado
Diga o que sente
E abra sua relação

--
Mas ele nunca vai aceitar isso!

--
Pois é,
Talvez não

--
E então?

--
Olha, você tem duas opções
Pode lutar contra si mesma. Se esconder, reprimir,
Negar o que sente
E tentar sufocar a si mesma cada vez que uma pontinha de vida a tente invadir.
É uma luta eterna.

Ou
Pode lutar contra o mundo
Negar o que te é imposto
E agarrar com força tudo o que te traz vida.
É uma luta dura
Mais dura que qualquer outra, cheia de medos e revezes.
Mas é uma luta que pode ter fim
E, se tiver fim,
No fim sobra só a vida.

sábado, 15 de março de 2014

Da amiga Dandara

Publicação da amiga Dandara
Com quem espero estar junto
E junto com tantos outros
Transformando a luta em prática, incendiando esse mundo
E construindo um novo

"
É tão bizarro como sentimos falta de algo que não vivemos, que aconteceu quando éramos crianças ou quando nem tínhamos nascido. Legião Urbana foi uma das bandas que marcou minha adolescência, era a banda favorita de um dos meus melhores amigos daquela época, e cada música lembra uma situação. Ontem não teve como não lembrar de Caldas Novas e de uma certa galera, de como um bando de adolescentes achavam que discutiam filosofia e política, bebendo Rustoff com kisuco. Nas conversas com esses malucos eu imaginava como seria na faculdade, se aquelas discussões poderiam virar em alguma coisa.
Hoje, convivendo (tardiamente) com outro grupo de pessoas (malucas), de novo discutindo filosofia e política diariamente, vem o mesmo frio na barriga da adolescência, só que agora as coisas não estão mais só no campo das ideias, queremos incendiar tudo, e com eles eu me sinto fazendo algo, e principalmente, viva.

"Todos os dias quando acordo,
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo.

Todos os dias antes de dormir,
Lembro e esqueço como foi o dia
"Sempre em frente,
Não temos tempo a perder".

Nosso suor sagrado
É bem mais belo que esse sangue amargo
E tão sério
E selvagem,
Selvagem;
Selvagem.

Veja o sol dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega é da cor dos teus
Olhos: castanhos.
Então me abraça forte e,
Me diz mais uma vez
Que já estamos distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo,
Temos nosso próprio tempo,
Temos nosso próprio tempo.

Não tenho medo do escuro,
Mas deixe as luzes acesas agora,
O que foi escondido é o que se escondeu,
E o que foi prometido,
Ninguém prometeu.

Nem foi tempo perdido;
Somos tão jovens,
Tão jovens,
Tão jovens"
"